sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Boca

A bela boca vermelha estampando a pele pálida do rosto
A boca vermelha de pirulito de cereja
Ou de quem bebeu vinho barato
Ou de quem beijou uma moça de batom vermelho
Ou até mesmo de uma moça de batom vermelho
E os cabelos longos cobrindo ombros másculos

Ele passava na rua
Ela gritava seu nome
Ele olhava
Ela se escondia
Era sua fã.
Não sabia ao certo porque, mas o amava como à sua melhor amiga, que também possuía a bela
boca vermelha estampando a pele pálida do rosto.
Talvez amasse mais à sua melhor amiga, mas ele era o amor que lhe era permitido.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Solitude


Chora pra ninguém assistir
Um ninguém sempre próximo
Sem lágrimas
Alguns argumentos esgotam a contestação de certas verdades.
Nas pontas de cada um desses dedos que velejam tua pele
Guardo um pouco mais da certeza da solidão
Foge do ventre da mãe e já se torna mais sólido...solicito...só.
Solidão esculpida para se encaixar às extremidades onde o corpo finda.
Renovando-se a cada corte de cabelo, a cada banho em que se vão células mortas.
Toco sua pele
Minha solidão visita a sua, a gente sua...
lágrimas de saudade.
Nosso corpo reconhece a única companhia inseparável.
A morte.
Tentando sofrer juntos enquanto cada solidão segue o roteiro de sua história.
Se peço pra você ir embora é porque a solidão é espaçosa, só se esgota no que é imenso.

No fim do sofrimento, encontro a solitude.
E percebo que sem este espaço eu não poderia existir.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Petrifica

Não se pode colocar gelo até que o líquido transborde.
Não se pode colocar mais líquido que gelo, ou mais gelo que líquido, independente de o copo estar meio cheio ou meio vazio, mas sei errar melhor do que qualquer outra coisa que eu faça bem.
Cada cubo que eu encontro, guardo até derreter, mas no inverno faço um castelo de gelo e me abrigo.
Quando o inverno morre, danço com uma alegria indescritível. Na minha inocência nem percebo que o que me faz dançar é o sol. O sol derrete meu castelo gelado, escorrego, caio, me machuco, mas finjo que estou dançando. Tento segurar as paredes mas minhas mãos também escorregam. Calotas de gelo despencam do teto, e em uma fresta de luz, o calor cruel do sol, entra, e derrete minhas lágrimas. Como a gente se engana na dança. Finge que sabe dançar até parecer feliz. Se encolhe no calor, sente proteção... se acomoda. Esquece que a lágrima só nos torna fortes quando congelada. Como sou boa no erro, também não sei a medida do sol. Mas ninguém sabe o quanto eu poderia ser pior. Esse é o meu maior segredo.
Nos dias que tenho vivido nem mesmo o meu choro me comove. Já me imaginei idosa, medindo as rugas em frente ao espelho. A idade aumenta o respeito próprio. Nos faz aceitar o inexplicável como ele é. Eu sei bem do meu ridículo. É meu outro maior segredo.
E sei que só posso ser feliz, dançando sem saber dançar. Quem ri da minha dança não imagina o prazer que move meu corpo.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Quarto Canto

No canto do quarto
No canto da boca
Encontra o silêncio.
Escondida na tinta, canta versos nas paredes.
A memória
Nas paredes escrevo
Para não esquecer
Minha memória frágil, lenta...
Presente no ápice da euforia
canta.
a dor escalando pelos cantos
Amuada
Canto dores que ecoam pela casa
Cutucam o vizinho
Minha cama é no canto confortável de sempre
de cadência não-muda
grita.
Coloco-a no meio do teto. E ela dança. Não me interessa o que já vivi.
Embora, naquela cama, naquele canto, eu já tenha vivido
várias vidas.
Me parto ao meio e me mostro do avesso.
A cama se dissolve.
Escorre por três cantos e me deixa no quarto canto do quarto.
Me encolho até ser pequena, e o medo vai preenchendo o que ficou va zio...
Minhas costas estão coladas no canto.
Presa.
Uma aranha se move na teia da quina do teto; do quarto canto do quarto (ser/estar presa).
Mesmo se não houvesse teia (telha), não sei voar.
E como seguir em frente se na minha frente o que há é só medo?
O medo preenchendo as três dimensões da minha face. As paredes preenchendo as duas dimensões do meu corpo
Meu corpo é frágil como papel. A mente se apossou de tudo.

O canto da boca que me acordava com um beijo no canto da boca vivendo deitado em tinta Suvinil
A tinta perece. A boca para de respirar e morre. As paredes desmoronam.
A dor esquece-se de si mesma.
Oh, minha frágil memória... quarto canto do quarto esquecimento...
O medo esquece a solidão do quarto. Reservando desespero, só voltará quando encontrar o perigo.
Nada do que sinto pode ser eterno.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Réquiem para um romance

Ela vinha latir na minha janela
Louca e nua. Não tinha rosto, ou talvez tivesse todos os rostos, ou seu rosto se condensava ao escuro da madrugada. Não sei. Algumas ideias nascem e se perdem nos sonhos. Eu acordava e a recebia, doce como um sorriso que se desfaz. Ela entrava, destruíndo minha casa, minhas concepções, e meus porta-retratos. Eu lhe dava água para que ela se acalmasse. Sabia que ela tinha sede, e tudo que eu queria era alguém com sede. Ela gritava, e devastava meu mundo, tão asseado outrora, em prateleiras de livros, e roupas separadas por tons. Mas era o que eu esperava. Tudo que eu sempre quis era alguém para arruinar minha vida. Alguém com fome e curiosidade suficientes, para deixar atrás de si o prenúncio do apocalipse. Morrendo com o passado e ecoando no futuro.
Me fazendo perceber, o efêmero constante do mundo racional pervertendo o tempo. Seu olhar era força centrípeta, que eu recebia com ânsia, prevendo o medo de que ele se esgotasse. Eu engolia seu olhar até que ele fosse embotado pela lógica fria do tempo. Não paramos para ver a folha cair da árvore, como na beleza dos filmes, e talvez por isso eu tive pressa. O tempo prometia explodir a qualquer momento. A morte era a bomba, amarrada ao pé do tempo. Daí a pressa de viver e mergulhar fundo no desconhecido. Buscá-lo em todos os lugares até a alma se perder, já que a disciplina sempre foge do suspense, e era assim que eu queria estar, suspensa, estática no tempo. Absorta em uma eternidade presente.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Cegueira sem censura

Ansiosa pra caralho. De chorar pelas tragédias que ainda não sei se vão me acontecer. Tenho medo dos dias vazios, porque me acostumei a construir um nada enorme dentro de mim, todos os dias. Gosto do tempo que eu jogo por aí sem cobrar nada, tempo que eu jogo na poeira da felicidade enquanto ela ainda está no ar...só gosto de perder o tempo que me permito perder. Só lido bem com as perdas que me permito. Irônico, pois ainda não me permiti nenhuma perda. São tempos difíceis os de hoje...tempos roubados. Ansiosa pra caralho. E em um dia desses, de apreciação ao poder que pareço exercer sobre mim mesma, não pude conter a vontade de correr desvairada, e chegar ao alcance de um trem que me faria chegar mais cedo em algum lugar onde ninguém me esperava. Nesse caminho de milésimos uma barra de ferro bateu na minha mão. Um barulho enorme. Entrei no trem. As portas se fecharam. Minha mão sangrava timidamente. Doeu. Eu estava em pé e segurava outra maldita barra de ferro com minha mão sã. A dor perambulou por todo o meu corpo e chegou até minha garganta, atolada pelo nó da etiqueta. Eu sentia raiva. Queria explodir num grito inflado de palavrões obscenos, mas não podia, era o nó da etiqueta me enforcando com a gravata. Era muita gente. Pensei: O que vocês estão olhando bando de vermes? Psicopatas imbecis! Quem ri sozinho é bêbado. Quem fala sozinho é louco. Quem chora sozinho é depressivo. Eu camuflava minha dor, e sentia cada vez mais ódio do olhar doentio daquela gente. O mundo parecia caçoar de mim. Todos melancólicos e frios. Todos entraram no consenso de ignorar tudo o que é pungente. O medo da censura é maior que qualquer sentimento. Parecer feliz é "ser feliz". Dói a vergonha de chorar em público. A sociedade é uma multidão de mães más mandando você engolir o choro...

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O Assalariado

Meu nome é Admilsom, mas escolhi André porque acredito não ter culpa da criatividade excessiva de minha mãe. Mas ontem ligaram lá em casa atrás desse Admilson, perguntando se ele queria participar de uma seleção nojenta de emprego, lá na república, e ele aceitou.
E eu, André, fui obrigado a acordar às cinco da manhã, e meter uma água gelada na minha cara de bunda pra não atrasar o Admilson. Então fui. Entrei naquele trem cheio de gente feia de cansaço e já fui encarnando o papel de Admilson - bom moço e trabalhador - pois a gente nunca sabe onde estão os fantasmas do RH. E era sempre assim. Era só eu vestir meu uniforme de caçador de empregos que eu já me sentia vigiado, principalmente quando aparecia alguém com aquelas roupas sociais, travestido de RH, nas ruas, no trem, no metrô, ou em qualquer lugar que eu fosse.
A verdade é que eu detesto todos eles. São um bando de pau mandado, que acreditam que sabem de tudo. Até que, finalmente, o trem chegou no metrô, que chegou no Recursos Desumanos, de mais uma empresa pra onde a obrigação me arrastou.
Entrei na sala minúscula onde já haviam uns dez ratinhos do laboratório do sistema, e fingi um "bom dia" que mesmo fingido acabaria com o dia de qualquer um. Depois de uma hora, e de mais alguns reféns adentrarem o cativeiro, Sir. RH chegou, para roubar o resto do nosso dia com aquelas entrevistas irrelevantes e dinâmicas sem nexo, para que depois todos nós voltássemos para casa com a promessa de um "possível" telefonema.
Sir RH, lambidinho de gel, começava seu blá blá blá. Uma moça falante e quase bonita, de português equivicado, oferecia seu decote para ele. Um burguês falido de meia idade, agitava desesperadamente seu diploma no ar. Uma senhora, com cara de solteirona infeliz, ajoelhou-se aos pés de Sir. RH lhe oferecendo seringas, para que ele retirasse todo o sangue dela e colocasse nos cofres escuros da empresa. E lá estava Admilsom ou André, agora dava no mesmo. Um músico frustrado, que só tocou na orquestra dos sonhos, tentando conquistar aquele jovam, quase bonito, com sua experiência de vida, sua cultura, sua sensibilidade artística e muita angústia.
Os outros tipos eram muito parecidos com Sir. RH, todos lambidinhos de gel, de português muito correto e roupa engomada.
Eu me sentia paralisado, e tinha a impressão de que qualquer movimento meu poderia ser mal interpretado e pôr tudo a perder. Ao mesmo tempo eu me pergunta o que eu tinha a perder. Mas por mais que eu resistisse, a verdade falava mais alto. Eu precisava me garantir. Garantir minha existência e ajudar minha mãe, que chegava à velhice a passos largos.
E de repente me apeguei a um otimismo que não era meu, sorrindo para Sir. RH como uma velha cheia de botox. E comecei, sem perceber, a bajulá-lo como todos os presentes, mostrando um lado meu que eu nem imaginava que existia. Essa irônia toda me fez rir por dentro e ao mesmo tempo sentir orgulho pela revelação do meu talento de ator.
Aos poucos eu percebia a mocinha burra esconder seu profundo decote com o rosto ridiculamente vermelho, o burguês falido roendo seu diploma como um rato insano e imbecil, e a senhora encalhada arrancando as seringas das veias. Eles estavam desistindo. E eu estava lá. Firme como uma suntuosa estátua de mármore.
Acariciei minha cabeça sutilmente, como que para firmar meus pensamentos, e só então pude perceber o quanto meu cabelo estava lambidinho de gel. Sim, eu era um deles. E sem que me desse conta disso, estava criticando e detestando minha própria espécie.
Me senti mal no começo, mas depois percebi que eu tinha motivos para ficar feliz, pois isso queria dizer que eu ainda tinha chance.
E após passarmos o dia inteiro nos desafiando e degladiando, fomos dispensados. Alguns saíram mais otimistas que outros, mas no fundo ninguém sabia quem iria encontrar quem novamente. Eu era um dos otimistas. Não sei porque mas de repente minha atuação se transformou na mais cristalina das verdades. Senti que Sir. RH, ao apertar minha mão me olhou diferente, como se olhasse pra si mesmo. Agora éramos cúmplices e já sabíamos o que iria acontecer.
Fui para casa carregado de esperança, e à noite tive sonhos dos mais agradáveis. Eu e Sir. RH num palácio cheio de empregados mandando e desmandando em tudo. Iguais. Idênticos como irmãos gêmeos, e não só na aparência. Compartilhavamos as mesmas ideias e objetivos, eramos um só, na grande e poderosa máquina do sistema.
Acordei tranquilamente e o telefonema não tardou. Fui escolhido. Imediatamente já me senti aliviado, pois finalmente teria meu lugar no mundo. Reuni minuciosamente todos os documentos e fui sem atraso em direção ao trem, que agora, me guiaria para minha nova vida. No caminho eu refletia sobre as novas possibilidades, e me via num futuro, lado a lado de Sir. RH, em cargos cada vez mais importantes, selecionando e recrutando os funcionários que apetecessem meus caprichos, subindo em direção ao cume da pirâmide. E num suspiro de dor me despedi dos meus dias ociosos e livres, afinal eu não tinha nada a perder, pois a liberdade não tem valor monetário.
Agora eu estava inserido na fantástica engrenagem. Era mais uma peça, idêntica a tantas outras com o mesmo dever, a mesma ação. Minha voz se condensava à voz de outros milhões, à voz de uma massa brutamente modelada. Eu esperava o trem, e na distração dos meus pensamentos deixei minha pasta de documentos cair na via. Me joguei nos trilhos sem pensar, resgatei minha pasta e a apertei contra o peito. Fechei os olhos e senti um vento leve tocar meu rosto. As pessos na plataforma começaram a gritar, e eu sabia o que estava acontecendo. A luz do farol do trem furou minhas palpebras, e eu sabia o que estava acontecendo. Mas de repente me veio a plena certeza de que eu não tinha nada a perder.