quinta-feira, 23 de maio de 2013

Cegueira sem censura

Ansiosa pra caralho. De chorar pelas tragédias que ainda não sei se vão me acontecer. Tenho medo dos dias vazios, porque me acostumei a construir um nada enorme dentro de mim, todos os dias. Gosto do tempo que eu jogo por aí sem cobrar nada, tempo que eu jogo na poeira da felicidade enquanto ela ainda está no ar...só gosto de perder o tempo que me permito perder. Só lido bem com as perdas que me permito. Irônico, pois ainda não me permiti nenhuma perda. São tempos difíceis os de hoje...tempos roubados. Ansiosa pra caralho. E em um dia desses, de apreciação ao poder que pareço exercer sobre mim mesma, não pude conter a vontade de correr desvairada, e chegar ao alcance de um trem que me faria chegar mais cedo em algum lugar onde ninguém me esperava. Nesse caminho de milésimos uma barra de ferro bateu na minha mão. Um barulho enorme. Entrei no trem. As portas se fecharam. Minha mão sangrava timidamente. Doeu. Eu estava em pé e segurava outra maldita barra de ferro com minha mão sã. A dor perambulou por todo o meu corpo e chegou até minha garganta, atolada pelo nó da etiqueta. Eu sentia raiva. Queria explodir num grito inflado de palavrões obscenos, mas não podia, era o nó da etiqueta me enforcando com a gravata. Era muita gente. Pensei: O que vocês estão olhando bando de vermes? Psicopatas imbecis! Quem ri sozinho é bêbado. Quem fala sozinho é louco. Quem chora sozinho é depressivo. Eu camuflava minha dor, e sentia cada vez mais ódio do olhar doentio daquela gente. O mundo parecia caçoar de mim. Todos melancólicos e frios. Todos entraram no consenso de ignorar tudo o que é pungente. O medo da censura é maior que qualquer sentimento. Parecer feliz é "ser feliz". Dói a vergonha de chorar em público. A sociedade é uma multidão de mães más mandando você engolir o choro...