sexta-feira, 27 de maio de 2011

O Assalariado

Meu nome é Admilsom, mas escolhi André porque acredito não ter culpa da criatividade excessiva de minha mãe. Mas ontem ligaram lá em casa atrás desse Admilson, perguntando se ele queria participar de uma seleção nojenta de emprego, lá na república, e ele aceitou.
E eu, André, fui obrigado a acordar às cinco da manhã, e meter uma água gelada na minha cara de bunda pra não atrasar o Admilson. Então fui. Entrei naquele trem cheio de gente feia de cansaço e já fui encarnando o papel de Admilson - bom moço e trabalhador - pois a gente nunca sabe onde estão os fantasmas do RH. E era sempre assim. Era só eu vestir meu uniforme de caçador de empregos que eu já me sentia vigiado, principalmente quando aparecia alguém com aquelas roupas sociais, travestido de RH, nas ruas, no trem, no metrô, ou em qualquer lugar que eu fosse.
A verdade é que eu detesto todos eles. São um bando de pau mandado, que acreditam que sabem de tudo. Até que, finalmente, o trem chegou no metrô, que chegou no Recursos Desumanos, de mais uma empresa pra onde a obrigação me arrastou.
Entrei na sala minúscula onde já haviam uns dez ratinhos do laboratório do sistema, e fingi um "bom dia" que mesmo fingido acabaria com o dia de qualquer um. Depois de uma hora, e de mais alguns reféns adentrarem o cativeiro, Sir. RH chegou, para roubar o resto do nosso dia com aquelas entrevistas irrelevantes e dinâmicas sem nexo, para que depois todos nós voltássemos para casa com a promessa de um "possível" telefonema.
Sir RH, lambidinho de gel, começava seu blá blá blá. Uma moça falante e quase bonita, de português equivicado, oferecia seu decote para ele. Um burguês falido de meia idade, agitava desesperadamente seu diploma no ar. Uma senhora, com cara de solteirona infeliz, ajoelhou-se aos pés de Sir. RH lhe oferecendo seringas, para que ele retirasse todo o sangue dela e colocasse nos cofres escuros da empresa. E lá estava Admilsom ou André, agora dava no mesmo. Um músico frustrado, que só tocou na orquestra dos sonhos, tentando conquistar aquele jovam, quase bonito, com sua experiência de vida, sua cultura, sua sensibilidade artística e muita angústia.
Os outros tipos eram muito parecidos com Sir. RH, todos lambidinhos de gel, de português muito correto e roupa engomada.
Eu me sentia paralisado, e tinha a impressão de que qualquer movimento meu poderia ser mal interpretado e pôr tudo a perder. Ao mesmo tempo eu me pergunta o que eu tinha a perder. Mas por mais que eu resistisse, a verdade falava mais alto. Eu precisava me garantir. Garantir minha existência e ajudar minha mãe, que chegava à velhice a passos largos.
E de repente me apeguei a um otimismo que não era meu, sorrindo para Sir. RH como uma velha cheia de botox. E comecei, sem perceber, a bajulá-lo como todos os presentes, mostrando um lado meu que eu nem imaginava que existia. Essa irônia toda me fez rir por dentro e ao mesmo tempo sentir orgulho pela revelação do meu talento de ator.
Aos poucos eu percebia a mocinha burra esconder seu profundo decote com o rosto ridiculamente vermelho, o burguês falido roendo seu diploma como um rato insano e imbecil, e a senhora encalhada arrancando as seringas das veias. Eles estavam desistindo. E eu estava lá. Firme como uma suntuosa estátua de mármore.
Acariciei minha cabeça sutilmente, como que para firmar meus pensamentos, e só então pude perceber o quanto meu cabelo estava lambidinho de gel. Sim, eu era um deles. E sem que me desse conta disso, estava criticando e detestando minha própria espécie.
Me senti mal no começo, mas depois percebi que eu tinha motivos para ficar feliz, pois isso queria dizer que eu ainda tinha chance.
E após passarmos o dia inteiro nos desafiando e degladiando, fomos dispensados. Alguns saíram mais otimistas que outros, mas no fundo ninguém sabia quem iria encontrar quem novamente. Eu era um dos otimistas. Não sei porque mas de repente minha atuação se transformou na mais cristalina das verdades. Senti que Sir. RH, ao apertar minha mão me olhou diferente, como se olhasse pra si mesmo. Agora éramos cúmplices e já sabíamos o que iria acontecer.
Fui para casa carregado de esperança, e à noite tive sonhos dos mais agradáveis. Eu e Sir. RH num palácio cheio de empregados mandando e desmandando em tudo. Iguais. Idênticos como irmãos gêmeos, e não só na aparência. Compartilhavamos as mesmas ideias e objetivos, eramos um só, na grande e poderosa máquina do sistema.
Acordei tranquilamente e o telefonema não tardou. Fui escolhido. Imediatamente já me senti aliviado, pois finalmente teria meu lugar no mundo. Reuni minuciosamente todos os documentos e fui sem atraso em direção ao trem, que agora, me guiaria para minha nova vida. No caminho eu refletia sobre as novas possibilidades, e me via num futuro, lado a lado de Sir. RH, em cargos cada vez mais importantes, selecionando e recrutando os funcionários que apetecessem meus caprichos, subindo em direção ao cume da pirâmide. E num suspiro de dor me despedi dos meus dias ociosos e livres, afinal eu não tinha nada a perder, pois a liberdade não tem valor monetário.
Agora eu estava inserido na fantástica engrenagem. Era mais uma peça, idêntica a tantas outras com o mesmo dever, a mesma ação. Minha voz se condensava à voz de outros milhões, à voz de uma massa brutamente modelada. Eu esperava o trem, e na distração dos meus pensamentos deixei minha pasta de documentos cair na via. Me joguei nos trilhos sem pensar, resgatei minha pasta e a apertei contra o peito. Fechei os olhos e senti um vento leve tocar meu rosto. As pessos na plataforma começaram a gritar, e eu sabia o que estava acontecendo. A luz do farol do trem furou minhas palpebras, e eu sabia o que estava acontecendo. Mas de repente me veio a plena certeza de que eu não tinha nada a perder.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A Hora da Estrela n° 2

Valdir saiu de um beco ordinário, carregando em um saco plástico uma bebida mais ordinária ainda. Tinha trabalhado o dia inteiro carregando uns caixotes para os comerciantes do mercado municipal. Sim, trabalhava ás vezes. Sabia que de vez em quando era necessário comer, e que todos os dias era necessário beber. É o ciclo natural dos homens destinados ao vício e a tristeza. Miserável era, sabia que era; mas também era ingênuo de acreditar em felicidade, mesmo que utopicamente. No seu rosto, vivia um semi sorriso de angústia e bondade, daqueles que só sobrevivem em homens bons. Já tinha sido preso por pequenos delitos, mas homens de caráter como o dele, não costumam ter talento para o crime, e logo fracassam nessa arte.
E com esse mesmo semi sorriso de sempre, ele subiu as escadas do terminal de ônibus, para uma noite de sono merecido. Deitou-se em um papelão onde cabia o seu corpo todo, o que ele considerou confortável.Deu uns goles no seu "remédio para dormir", e ficou de espectador das estrelas, esperando o sono chegar.
Barreto subia as escadas do terminal: três gramas de cocaína no nariz e dois no bolso. Andava manco, pois uma faca incomodava sua cintura. Barreto era camelô,na frente do terminal. Estava furioso porque no dia anterior fora assaltado por um mendigo, "provavelmente o desgraçado fumava pedra", pensava ele. Barreto odiava usuários de crack odiava aquelas "caras sujas de zumbi", e se usava cocaína era porque "a cocaína é uma droga mais refinada",e ria-se sozinho de suas piadas, enquanto pensamentos de todo o gênero turbilhavam em sua cabeça. Ele também odiava negros, travestis, gays, "sapatonas", homem de cabelo longo, "porque cabelo longo é coisa de viado". Odiava prostitutas, mas as vezes elas tinham alguma serventia para ele. Odiava jovens e velhos, odiava que o olhassem na rua, odiava ver gente feliz, pois acreditava que a felicidade era fingimento.
Valdir pegava no sono. Sonhava acordado com um futuro onde ele poderia sentir algo parecido com felicidade. Observava as estrelas entre as frestas de suas pupilas; era nessas horas que sua vida valia a pena. Sentiu uma sombra se aproximar, escutou passos, mas já estava acostumado com as manifestações sonoras de seu dormitório público. Fechou os olhos novamente.
Quando Valdir voltou a abrir os olhos, viu uma estrela brilhar na ponta da lâmina. Era lindo. Era a primeira vez que Valdir via uma estrela piscar e morrer.

domingo, 1 de maio de 2011

Antes do pôr do sol ( Inspirado em Lygia Fagundes Telles )

Ele a olhou e viu aquela imagem derretendo na torrente de seus olhos. Não conseguia encará-la. A piedade dela o envergonhava. Olhou para o chão e ficou ali, paralisado, como se tentasse afundar no concreto.
Ela foi prudente o suficiente para não abraçá-lo pois sabia o quanto seu aspecto agora era cruelmente piedoso. Qualquer afeto em momentos assim é capaz de mergulhar uma navalha na ferida recente, deixando o fim e a cura inalcançáveis.
Então ele quis saber: " Quem é ele? ". Ela disse. Perguntou como, quando, e onde eles se conheceram. Ela disse, disse tudo. E enquanto ela dizia, sentia sua voz trêmula embalar o corpo dele num pesadelo. Sentia a vertigem de cada movimento desesperado que ele lançava contra o próprio corpo, e o crescente de raiva que nascia dentro dele.
Então ele a chingou de todos os nomes, alguns, no idioma de seu ódio, incompreensíveis para ela. Gritou com a ânsia de que o eco refletisse sua dor, respirou fundo e pareceu voltar em si. Ela permaneceu estática, petrificada.
Ele a encarou com os olhos secos de ódio, e disse, monotonamente: "Você vai sofrer de um arrependimento inimaginável. Desapareça antes que eu faça você desaparecer".
Ela não se apressou.Não se desapegara ainda da atmosfera íntima que a presença dele a proporcionava. Apanhou a bolsa e retirou-se educadamente. Sentia-se cruel naquele momento, mas se acalentava no alívio de quem faz a coisa certa.
Ela andava na calçada molhada de uma rua vazia, quando viu o sol se pondo e levando a chuva consigo. Fechou os olhos ternamente e desejou que ele fosse novamente feliz.
Nesse exato momento, com a escuridão engolindo os olhos, ele só desejava que ela morresse.