domingo, 1 de maio de 2011

Antes do pôr do sol ( Inspirado em Lygia Fagundes Telles )

Ele a olhou e viu aquela imagem derretendo na torrente de seus olhos. Não conseguia encará-la. A piedade dela o envergonhava. Olhou para o chão e ficou ali, paralisado, como se tentasse afundar no concreto.
Ela foi prudente o suficiente para não abraçá-lo pois sabia o quanto seu aspecto agora era cruelmente piedoso. Qualquer afeto em momentos assim é capaz de mergulhar uma navalha na ferida recente, deixando o fim e a cura inalcançáveis.
Então ele quis saber: " Quem é ele? ". Ela disse. Perguntou como, quando, e onde eles se conheceram. Ela disse, disse tudo. E enquanto ela dizia, sentia sua voz trêmula embalar o corpo dele num pesadelo. Sentia a vertigem de cada movimento desesperado que ele lançava contra o próprio corpo, e o crescente de raiva que nascia dentro dele.
Então ele a chingou de todos os nomes, alguns, no idioma de seu ódio, incompreensíveis para ela. Gritou com a ânsia de que o eco refletisse sua dor, respirou fundo e pareceu voltar em si. Ela permaneceu estática, petrificada.
Ele a encarou com os olhos secos de ódio, e disse, monotonamente: "Você vai sofrer de um arrependimento inimaginável. Desapareça antes que eu faça você desaparecer".
Ela não se apressou.Não se desapegara ainda da atmosfera íntima que a presença dele a proporcionava. Apanhou a bolsa e retirou-se educadamente. Sentia-se cruel naquele momento, mas se acalentava no alívio de quem faz a coisa certa.
Ela andava na calçada molhada de uma rua vazia, quando viu o sol se pondo e levando a chuva consigo. Fechou os olhos ternamente e desejou que ele fosse novamente feliz.
Nesse exato momento, com a escuridão engolindo os olhos, ele só desejava que ela morresse.

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