Valdir saiu de um beco ordinário, carregando em um saco plástico uma bebida mais ordinária ainda. Tinha trabalhado o dia inteiro carregando uns caixotes para os comerciantes do mercado municipal. Sim, trabalhava ás vezes. Sabia que de vez em quando era necessário comer, e que todos os dias era necessário beber. É o ciclo natural dos homens destinados ao vício e a tristeza. Miserável era, sabia que era; mas também era ingênuo de acreditar em felicidade, mesmo que utopicamente. No seu rosto, vivia um semi sorriso de angústia e bondade, daqueles que só sobrevivem em homens bons. Já tinha sido preso por pequenos delitos, mas homens de caráter como o dele, não costumam ter talento para o crime, e logo fracassam nessa arte.
E com esse mesmo semi sorriso de sempre, ele subiu as escadas do terminal de ônibus, para uma noite de sono merecido. Deitou-se em um papelão onde cabia o seu corpo todo, o que ele considerou confortável.Deu uns goles no seu "remédio para dormir", e ficou de espectador das estrelas, esperando o sono chegar.
Barreto subia as escadas do terminal: três gramas de cocaína no nariz e dois no bolso. Andava manco, pois uma faca incomodava sua cintura. Barreto era camelô,na frente do terminal. Estava furioso porque no dia anterior fora assaltado por um mendigo, "provavelmente o desgraçado fumava pedra", pensava ele. Barreto odiava usuários de crack odiava aquelas "caras sujas de zumbi", e se usava cocaína era porque "a cocaína é uma droga mais refinada",e ria-se sozinho de suas piadas, enquanto pensamentos de todo o gênero turbilhavam em sua cabeça. Ele também odiava negros, travestis, gays, "sapatonas", homem de cabelo longo, "porque cabelo longo é coisa de viado". Odiava prostitutas, mas as vezes elas tinham alguma serventia para ele. Odiava jovens e velhos, odiava que o olhassem na rua, odiava ver gente feliz, pois acreditava que a felicidade era fingimento.
Valdir pegava no sono. Sonhava acordado com um futuro onde ele poderia sentir algo parecido com felicidade. Observava as estrelas entre as frestas de suas pupilas; era nessas horas que sua vida valia a pena. Sentiu uma sombra se aproximar, escutou passos, mas já estava acostumado com as manifestações sonoras de seu dormitório público. Fechou os olhos novamente.
Quando Valdir voltou a abrir os olhos, viu uma estrela brilhar na ponta da lâmina. Era lindo. Era a primeira vez que Valdir via uma estrela piscar e morrer.
Eu sempre quis ver uma estrela piscar até morrer. Isso é interessante pois nós somos restos de uma explosão estrelar, não? Enfim.. gostei muito do texto, você descreve muito bem Beth, já pdoe fazer cinema haha ;)
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