Meu nome é Admilsom, mas escolhi André porque acredito não ter culpa da criatividade excessiva de minha mãe. Mas ontem ligaram lá em casa atrás desse Admilson, perguntando se ele queria participar de uma seleção nojenta de emprego, lá na república, e ele aceitou.
E eu, André, fui obrigado a acordar às cinco da manhã, e meter uma água gelada na minha cara de bunda pra não atrasar o Admilson. Então fui. Entrei naquele trem cheio de gente feia de cansaço e já fui encarnando o papel de Admilson - bom moço e trabalhador - pois a gente nunca sabe onde estão os fantasmas do RH. E era sempre assim. Era só eu vestir meu uniforme de caçador de empregos que eu já me sentia vigiado, principalmente quando aparecia alguém com aquelas roupas sociais, travestido de RH, nas ruas, no trem, no metrô, ou em qualquer lugar que eu fosse.
A verdade é que eu detesto todos eles. São um bando de pau mandado, que acreditam que sabem de tudo. Até que, finalmente, o trem chegou no metrô, que chegou no Recursos Desumanos, de mais uma empresa pra onde a obrigação me arrastou.
Entrei na sala minúscula onde já haviam uns dez ratinhos do laboratório do sistema, e fingi um "bom dia" que mesmo fingido acabaria com o dia de qualquer um. Depois de uma hora, e de mais alguns reféns adentrarem o cativeiro, Sir. RH chegou, para roubar o resto do nosso dia com aquelas entrevistas irrelevantes e dinâmicas sem nexo, para que depois todos nós voltássemos para casa com a promessa de um "possível" telefonema.
Sir RH, lambidinho de gel, começava seu blá blá blá. Uma moça falante e quase bonita, de português equivicado, oferecia seu decote para ele. Um burguês falido de meia idade, agitava desesperadamente seu diploma no ar. Uma senhora, com cara de solteirona infeliz, ajoelhou-se aos pés de Sir. RH lhe oferecendo seringas, para que ele retirasse todo o sangue dela e colocasse nos cofres escuros da empresa. E lá estava Admilsom ou André, agora dava no mesmo. Um músico frustrado, que só tocou na orquestra dos sonhos, tentando conquistar aquele jovam, quase bonito, com sua experiência de vida, sua cultura, sua sensibilidade artística e muita angústia.
Os outros tipos eram muito parecidos com Sir. RH, todos lambidinhos de gel, de português muito correto e roupa engomada.
Eu me sentia paralisado, e tinha a impressão de que qualquer movimento meu poderia ser mal interpretado e pôr tudo a perder. Ao mesmo tempo eu me pergunta o que eu tinha a perder. Mas por mais que eu resistisse, a verdade falava mais alto. Eu precisava me garantir. Garantir minha existência e ajudar minha mãe, que chegava à velhice a passos largos.
E de repente me apeguei a um otimismo que não era meu, sorrindo para Sir. RH como uma velha cheia de botox. E comecei, sem perceber, a bajulá-lo como todos os presentes, mostrando um lado meu que eu nem imaginava que existia. Essa irônia toda me fez rir por dentro e ao mesmo tempo sentir orgulho pela revelação do meu talento de ator.
Aos poucos eu percebia a mocinha burra esconder seu profundo decote com o rosto ridiculamente vermelho, o burguês falido roendo seu diploma como um rato insano e imbecil, e a senhora encalhada arrancando as seringas das veias. Eles estavam desistindo. E eu estava lá. Firme como uma suntuosa estátua de mármore.
Acariciei minha cabeça sutilmente, como que para firmar meus pensamentos, e só então pude perceber o quanto meu cabelo estava lambidinho de gel. Sim, eu era um deles. E sem que me desse conta disso, estava criticando e detestando minha própria espécie.
Me senti mal no começo, mas depois percebi que eu tinha motivos para ficar feliz, pois isso queria dizer que eu ainda tinha chance.
E após passarmos o dia inteiro nos desafiando e degladiando, fomos dispensados. Alguns saíram mais otimistas que outros, mas no fundo ninguém sabia quem iria encontrar quem novamente. Eu era um dos otimistas. Não sei porque mas de repente minha atuação se transformou na mais cristalina das verdades. Senti que Sir. RH, ao apertar minha mão me olhou diferente, como se olhasse pra si mesmo. Agora éramos cúmplices e já sabíamos o que iria acontecer.
Fui para casa carregado de esperança, e à noite tive sonhos dos mais agradáveis. Eu e Sir. RH num palácio cheio de empregados mandando e desmandando em tudo. Iguais. Idênticos como irmãos gêmeos, e não só na aparência. Compartilhavamos as mesmas ideias e objetivos, eramos um só, na grande e poderosa máquina do sistema.
Acordei tranquilamente e o telefonema não tardou. Fui escolhido. Imediatamente já me senti aliviado, pois finalmente teria meu lugar no mundo. Reuni minuciosamente todos os documentos e fui sem atraso em direção ao trem, que agora, me guiaria para minha nova vida. No caminho eu refletia sobre as novas possibilidades, e me via num futuro, lado a lado de Sir. RH, em cargos cada vez mais importantes, selecionando e recrutando os funcionários que apetecessem meus caprichos, subindo em direção ao cume da pirâmide. E num suspiro de dor me despedi dos meus dias ociosos e livres, afinal eu não tinha nada a perder, pois a liberdade não tem valor monetário.
Agora eu estava inserido na fantástica engrenagem. Era mais uma peça, idêntica a tantas outras com o mesmo dever, a mesma ação. Minha voz se condensava à voz de outros milhões, à voz de uma massa brutamente modelada. Eu esperava o trem, e na distração dos meus pensamentos deixei minha pasta de documentos cair na via. Me joguei nos trilhos sem pensar, resgatei minha pasta e a apertei contra o peito. Fechei os olhos e senti um vento leve tocar meu rosto. As pessos na plataforma começaram a gritar, e eu sabia o que estava acontecendo. A luz do farol do trem furou minhas palpebras, e eu sabia o que estava acontecendo. Mas de repente me veio a plena certeza de que eu não tinha nada a perder.
é uma cronica social bem realista! Teriamos alguma saída como seres humanos? Talvez ser artista? Ou ser camelô? Ser dono de seu próprio negócio???
ResponderExcluirHmmm....Parabens pelo texto bem estruturado. Clauss
derrepente lembrei de uma frase de Chico Buarque:
ResponderExcluir"Morreu na contramão atrapalhando o trafego..."