No canto do quarto
No canto da boca
Encontra o silêncio.
Escondida na tinta, canta versos nas paredes.
A memória
Nas paredes escrevo
Para não esquecer
Minha memória frágil, lenta...
Presente no ápice da euforia
canta.
a dor escalando pelos cantos
Amuada
Canto dores que ecoam pela casa
Cutucam o vizinho
Minha cama é no canto confortável de sempre
de cadência não-muda
grita.
Coloco-a no meio do teto. E ela dança. Não me interessa o que já vivi.
Embora, naquela cama, naquele canto, eu já tenha vivido
várias vidas.
Me parto ao meio e me mostro do avesso.
A cama se dissolve.
Escorre por três cantos e me deixa no quarto canto do quarto.
Me encolho até ser pequena, e o medo vai preenchendo o que ficou va zio...
Minhas costas estão coladas no canto.
Presa.
Uma aranha se move na teia da quina do teto; do quarto canto do quarto (ser/estar presa).
Mesmo se não houvesse teia (telha), não sei voar.
E como seguir em frente se na minha frente o que há é só medo?
O medo preenchendo as três dimensões da minha face. As paredes preenchendo as duas dimensões do meu corpo
Meu corpo é frágil como papel. A mente se apossou de tudo.
O canto da boca que me acordava com um beijo no canto da boca vivendo deitado em tinta Suvinil
A tinta perece. A boca para de respirar e morre. As paredes desmoronam.
A dor esquece-se de si mesma.
Oh, minha frágil memória... quarto canto do quarto esquecimento...
O medo esquece a solidão do quarto. Reservando desespero, só voltará quando encontrar o perigo.
Nada do que sinto pode ser eterno.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Réquiem para um romance
Ela vinha latir na minha janela
Louca e nua. Não tinha rosto, ou talvez tivesse todos os rostos, ou seu rosto se condensava ao escuro da madrugada. Não sei. Algumas ideias nascem e se perdem nos sonhos. Eu acordava e a recebia, doce como um sorriso que se desfaz. Ela entrava, destruíndo minha casa, minhas concepções, e meus porta-retratos. Eu lhe dava água para que ela se acalmasse. Sabia que ela tinha sede, e tudo que eu queria era alguém com sede. Ela gritava, e devastava meu mundo, tão asseado outrora, em prateleiras de livros, e roupas separadas por tons. Mas era o que eu esperava. Tudo que eu sempre quis era alguém para arruinar minha vida. Alguém com fome e curiosidade suficientes, para deixar atrás de si o prenúncio do apocalipse. Morrendo com o passado e ecoando no futuro.
Me fazendo perceber, o efêmero constante do mundo racional pervertendo o tempo. Seu olhar era força centrípeta, que eu recebia com ânsia, prevendo o medo de que ele se esgotasse. Eu engolia seu olhar até que ele fosse embotado pela lógica fria do tempo. Não paramos para ver a folha cair da árvore, como na beleza dos filmes, e talvez por isso eu tive pressa. O tempo prometia explodir a qualquer momento. A morte era a bomba, amarrada ao pé do tempo. Daí a pressa de viver e mergulhar fundo no desconhecido. Buscá-lo em todos os lugares até a alma se perder, já que a disciplina sempre foge do suspense, e era assim que eu queria estar, suspensa, estática no tempo. Absorta em uma eternidade presente.
Louca e nua. Não tinha rosto, ou talvez tivesse todos os rostos, ou seu rosto se condensava ao escuro da madrugada. Não sei. Algumas ideias nascem e se perdem nos sonhos. Eu acordava e a recebia, doce como um sorriso que se desfaz. Ela entrava, destruíndo minha casa, minhas concepções, e meus porta-retratos. Eu lhe dava água para que ela se acalmasse. Sabia que ela tinha sede, e tudo que eu queria era alguém com sede. Ela gritava, e devastava meu mundo, tão asseado outrora, em prateleiras de livros, e roupas separadas por tons. Mas era o que eu esperava. Tudo que eu sempre quis era alguém para arruinar minha vida. Alguém com fome e curiosidade suficientes, para deixar atrás de si o prenúncio do apocalipse. Morrendo com o passado e ecoando no futuro.
Me fazendo perceber, o efêmero constante do mundo racional pervertendo o tempo. Seu olhar era força centrípeta, que eu recebia com ânsia, prevendo o medo de que ele se esgotasse. Eu engolia seu olhar até que ele fosse embotado pela lógica fria do tempo. Não paramos para ver a folha cair da árvore, como na beleza dos filmes, e talvez por isso eu tive pressa. O tempo prometia explodir a qualquer momento. A morte era a bomba, amarrada ao pé do tempo. Daí a pressa de viver e mergulhar fundo no desconhecido. Buscá-lo em todos os lugares até a alma se perder, já que a disciplina sempre foge do suspense, e era assim que eu queria estar, suspensa, estática no tempo. Absorta em uma eternidade presente.
quinta-feira, 23 de maio de 2013
Cegueira sem censura
Ansiosa pra caralho. De chorar pelas tragédias que ainda não sei se vão me acontecer. Tenho medo dos dias vazios, porque me acostumei a construir um nada enorme dentro de mim, todos os dias. Gosto do tempo que eu jogo por aí sem cobrar nada, tempo que eu jogo na poeira da felicidade enquanto ela ainda está no ar...só gosto de perder o tempo que me permito perder. Só lido bem com as perdas que me permito. Irônico, pois ainda não me permiti nenhuma perda. São tempos difíceis os de hoje...tempos roubados.
Ansiosa pra caralho. E em um dia desses, de apreciação ao poder que pareço exercer sobre mim mesma, não pude conter a vontade de correr desvairada, e chegar ao alcance de um trem que me faria chegar mais cedo em algum lugar onde ninguém me esperava. Nesse caminho de milésimos uma barra de ferro bateu na minha mão. Um barulho enorme. Entrei no trem. As portas se fecharam. Minha mão sangrava timidamente. Doeu. Eu estava em pé e segurava outra maldita barra de ferro com minha mão sã. A dor perambulou por todo o meu corpo e chegou até minha garganta, atolada pelo nó da etiqueta. Eu sentia raiva. Queria explodir num grito inflado de palavrões obscenos, mas não podia, era o nó da etiqueta me enforcando com a gravata. Era muita gente. Pensei: O que vocês estão olhando bando de vermes? Psicopatas imbecis! Quem ri sozinho é bêbado. Quem fala sozinho é louco. Quem chora sozinho é depressivo. Eu camuflava minha dor, e sentia cada vez mais ódio do olhar doentio daquela gente. O mundo parecia caçoar de mim. Todos melancólicos e frios. Todos entraram no consenso de ignorar tudo o que é pungente. O medo da censura é maior que qualquer sentimento. Parecer feliz é "ser feliz". Dói a vergonha de chorar em público. A sociedade é uma multidão de mães más mandando você engolir o choro...
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