Ela vinha latir na minha janela
Louca e nua. Não tinha rosto, ou talvez tivesse todos os rostos, ou seu rosto se condensava ao escuro da madrugada. Não sei. Algumas ideias nascem e se perdem nos sonhos. Eu acordava e a recebia, doce como um sorriso que se desfaz. Ela entrava, destruíndo minha casa, minhas concepções, e meus porta-retratos. Eu lhe dava água para que ela se acalmasse. Sabia que ela tinha sede, e tudo que eu queria era alguém com sede. Ela gritava, e devastava meu mundo, tão asseado outrora, em prateleiras de livros, e roupas separadas por tons. Mas era o que eu esperava. Tudo que eu sempre quis era alguém para arruinar minha vida. Alguém com fome e curiosidade suficientes, para deixar atrás de si o prenúncio do apocalipse. Morrendo com o passado e ecoando no futuro.
Me fazendo perceber, o efêmero constante do mundo racional pervertendo o tempo. Seu olhar era força centrípeta, que eu recebia com ânsia, prevendo o medo de que ele se esgotasse. Eu engolia seu olhar até que ele fosse embotado pela lógica fria do tempo. Não paramos para ver a folha cair da árvore, como na beleza dos filmes, e talvez por isso eu tive pressa. O tempo prometia explodir a qualquer momento. A morte era a bomba, amarrada ao pé do tempo. Daí a pressa de viver e mergulhar fundo no desconhecido. Buscá-lo em todos os lugares até a alma se perder, já que a disciplina sempre foge do suspense, e era assim que eu queria estar, suspensa, estática no tempo. Absorta em uma eternidade presente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário