quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Petrifica

Não se pode colocar gelo até que o líquido transborde.
Não se pode colocar mais líquido que gelo, ou mais gelo que líquido, independente de o copo estar meio cheio ou meio vazio, mas sei errar melhor do que qualquer outra coisa que eu faça bem.
Cada cubo que eu encontro, guardo até derreter, mas no inverno faço um castelo de gelo e me abrigo.
Quando o inverno morre, danço com uma alegria indescritível. Na minha inocência nem percebo que o que me faz dançar é o sol. O sol derrete meu castelo gelado, escorrego, caio, me machuco, mas finjo que estou dançando. Tento segurar as paredes mas minhas mãos também escorregam. Calotas de gelo despencam do teto, e em uma fresta de luz, o calor cruel do sol, entra, e derrete minhas lágrimas. Como a gente se engana na dança. Finge que sabe dançar até parecer feliz. Se encolhe no calor, sente proteção... se acomoda. Esquece que a lágrima só nos torna fortes quando congelada. Como sou boa no erro, também não sei a medida do sol. Mas ninguém sabe o quanto eu poderia ser pior. Esse é o meu maior segredo.
Nos dias que tenho vivido nem mesmo o meu choro me comove. Já me imaginei idosa, medindo as rugas em frente ao espelho. A idade aumenta o respeito próprio. Nos faz aceitar o inexplicável como ele é. Eu sei bem do meu ridículo. É meu outro maior segredo.
E sei que só posso ser feliz, dançando sem saber dançar. Quem ri da minha dança não imagina o prazer que move meu corpo.

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