quinta-feira, 10 de março de 2011

A espera

Eu não queria esperar, por isso me atrasei. Achava estranho esperar; sentir minha cabeça girando para todos os lados, se escondendo como a de uma tartaruga no medo de denunciar a ansiedade solitária da espera.
Talvez porque eu soubesse que não a esperaria com a mesma ansiedade neutra de quem espera uma carta. Seria como esperar um eu do passado, reencontrar uma intimidade já esquecida e corroída pelo tempo. Imaginava que a sensação dessa espera seria tão dolorosa quanto a espera do corredor da morte, que se acaba num tiro assustador e silenciante. E eu teria medo desse silêncio, provavelmente teria. Teria medo daquela saudade congelada, daquele afeto paralisante lacrimejando em seus olhos e nos meus, daquele rosto tão bem guardado nas minhas gavetas. Por isso me atrasei.
E me atrasando não encontrei nada.
E numa angústia perfeita o céu se acinzentou em minha homenagem. Caí na armadilha daquele tempo sem celulares e não pude saber se ela cansou de me esperar e se foi, ou se ela se atrasaria mais que eu. De qualquer forma eu fui condenada a esperar não sei o quê. Talvez o cansaço, talvez a decepção, e talvez, depois disso tudo ela chegasse.
O tempo me parecia de uma lentidão circular. A cada três horas o relógio avançava um minuto. Tive tempo de lembrar como nos conhecemos, e de sentir o mesmo que senti a primeira vez que me encontrei naqueles olhos. Lembrei da harmonia de nossas gargalhadas, daquela cumplicidade emocionada de nossos abraços, das poesias jogadas ao vento que viveram e morreram em nossas bocas só para aquele tempo, e que guardávamos como o segredo mais precioso do instante.
Tínhamos muitos segredos. Alguns indizíveis e indecifráveis, que só se desvendavam na cumplicidade dos olhos. Secretamos imagens, sabores,cores, sons e sentidos.
E agora esse momento de imprevisibilidade dos nossos destinos após uma distância planejada. Eu olhava para aquela multidão como se a procurasse na brasa do deserto. Meu peito galopava, carregava meus olhos para todas as direções, toda vez que a miragem de sua silhueta se desenhava em corpos estranhos.
Minhas mãos se entrelaçaram no nó aflito de uma prece de muito desespero e pouca fé. Senti várias vezes o afago imaginário de uma mão em meu ombro, e o som de uma voz melodiosa ecoava em minha cabeça. Quando imaginei o dia se esvaindo naquela tristeza, uma voz familiar enfim beijou meu ouvido, pedindo meu perdão de presente.

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